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Bem-Aventurados os que choram - Sermão do Monte [5]



“Bem-Aventurados os que choram, porque serão consolados”


Chegamos a segunda das Bem-Aventuranças. Esta, como resultado da primeira (v.3), destaca a diferença entre o crente e aquele que não é crente. O mundo dos descrentes sempre esbraveja em seus discursos, a necessidade de estar sempre sorrindo e alegre; ao passo que a Escritura paradoxalmente anuncia que felizes são os que choram. Antes de tudo, vale explicar que o choro aqui registrado, não é um choro comum. Sempre vemos muitos aplicando este texto a toda e qualquer situação de pranto. Mas o Senhor Jesus aqui trata de algo específico. Não é um choro como o de alguém que perdeu um ente querido, ou sofreu um grande trauma.

O que Jesus quis dizer com “Bem-Aventurados os que choram”?

Parece até difícil entender o que diz o versículo 4 do 5º capítulo de Mateus. Dizer que “sortudos”, “felizes” são os que choram, os tristes, os que se lamentam... Isso é algo bem difícil de se afirmar, pregar..., mas é isso mesmo!

Bem-Aventurados os que choram! Os que choram são felizes, são aqueles que terão consolo. Bem-Aventurados os que choram. E esse choro é espiritual e constante, como “aqueles que choraram uma vez e ainda estão chorando” (Gr). É um choro espiritual, embora não resulte somente em lágrimas internas. É o resultado de alguém que se viu pobre de espírito. Quando percebemos que não podemos nos salvar ou mesmo sustentarmo-nos na salvação, devido nosso estado miserável e vil, choramos. Os que choram são aqueles que choram por seus pecados. São os que lamentam suas falhas diariamente, que entendem que seu maior problema é o pecado que os destrói, afasta de Deus e os impede de ser servos melhores. É um sinal da genuína conversão, quando vemos a nossa tragédia, e sem esperança, nos agarramos a Cristo.

Por que choramos?

Choramos por nossa pobreza espiritual.

O pobre de espírito vê a sua total dependência de Deus, sabe que é falido e incompetente para se salvar. Quando percebemos isso, vamos ao desespero, como aqueles que ouviam Pedro pregar em Atos 2.37. Estes se desesperaram em seu espírito. Quando percebemos que somos vazios, nos entristecemos.

Choramos por nosso próprio pecado.

A razão da pobreza espiritual é o pecado. Não somos santos porque somos pecadores. Paulo nos explica bem esta condição da natureza humana em Romanos 3.9-18. O pecado desonra a Deus, é uma negação de Sua onisciência, em acharmos que estamos sós; zomba de Sua paciência e desconfia de Sua fidelidade, ao tempo em que não nos atentamos as Suas promessas de suprimento.

Nós choramos por nosso estado pecaminoso.

Todo bom cristão que olha para si mesmo, percebe que não é tão santo quanto poderia ser, que não se parece com Cristo como deveria parecer. Quando vemos nosso dia-a-dia, o que pensamos e o que nossos olhos estão vendo, não podemos negar que somos terríveis pecadores. Se nos perguntarmos “-O que fiz? O que disse? O que pensei? Como agi com meus semelhantes?” – Assim como eu, você se lamentará, batendo no peito e afirmando-se miserável (Romanos 7.24).

Choramos porque odiamos nossa condição.

Nos questionamos em oração: “-Por que sou assim? Por que não consigo ser melhor? Por que luto há anos contra esse pecado e não consigo me livrar?”. Somos levados por Deus a odiar-nos, a odiar nosso pecado, a odiar-nos, porque não nos parecemos com Cristo. Somos levados a níveis profundos de depressão, tristeza, angústia, lamento, e isto me faz lembrar de momentos preciosos da minha vida, porque desde que fui convertido, tenho chorado constantemente por causa de quem eu sou.

Mas também choramos pelos pecados do mundo.

Quando nos olhamos, só vemos miséria em nós, e lamentamos, mas quando olhamos o mundo, também choramos. Choramos quando vemos nos jornais as desgraças que o homem faz com seu semelhante, que é imagem de Deus; quando ouvimos sobre tráfico sexual, pedofilia, incestos, desigualdades, pessoas morrendo em corredores de hospital, AIDS, ditaduras, corrupção, homens e crianças-bomba, aborto, a drogadição e o vício em álcool... Enfim, o que o homem sem Deus faz consigo, além do fato de muitos estarem indo para o inferno porque o preferiram a renderem-se ao Salvador. Nos lamentamos por isso e choramos. Choramos por pensar em quão depravado e mau o homem pode ser.

Choramos pelo que todo esse pecado fez a Jesus.

Esta é obviamente nossa maior tristeza. Olhamos para nós, para o mundo e vemos o quanto nosso pecado ofende a Deus. E principalmente pelo que foi feito para que tivéssemos perdão. Essa é a “tristeza do Evangelho”, saber que por causa do meu pecado, Deus esmagou Seu único e amado Filho na cruz (Isaías 53.10); que por nossa causa, Jesus ficou desfigurado, foi cuspido e xingado, zombado; além de receber toda a ira de Deus, todo o castigo do inferno por nossos pecados... Ele nos amou tanto e O desprezávamos! Choramos porque não conseguimos retribuir - e como isso dói o coração - porque sabemos que Ele morreu por todos os nossos pecados, e sabemos que amanhã, faremos tudo aquilo que matou nosso Amado Jesus. O meu Amor morreu por mim e eu só sei desagradá-Lo, entristecer Seu Espírito!

A minha iniquidade matou o meu Jesus e por isso odeio o pecado e choro, pois sou miserável. Como diz a Escritura: “Mas sobre a casa de Davi, e sobre os habitantes de Jerusalém, derramarei o Espírito de graça e de súplicas; e olharão para mim, a quem traspassaram; e prantearão sobre ele, como quem pranteia pelo filho unigênito; e chorarão amargamente por ele, como se chora amargamente pelo primogênito.” (Zacarias 12:10). Tantas vezes já chorei, desejei a morte para não mais pecar, ou mesmo passei dias em profunda melancolia por ter entristecido meu Salvador!

Isto pode parecer estranho a alguns, principalmente para o mundo. E a razão disto é justamente a época em que vivemos. Por este motivo, esta Bem-Aventurança parece loucura àqueles que não foram feitos tristes por Deus. O ‘evangelho’ de hoje diz que devemos sentir-nos bem-sucedidos, que ter tristeza é falta de fé, que “agora é só vitória!”. Para este mundo hedonista, sentir-se mal é algo contrário a filosofia vigente, de modo é ensinado que aquilo que você puder fazer para se sentir feliz é valido, ainda que seja à custa dos outros. Todavia não é assim com o crente, pois a tristeza evidencia que paradoxalmente somos felizes.

O fato de chorarmos confirma que fomos salvos, e que o Reino de Deus é nosso. Paulo nos mostra que a tristeza pelos nossos pecados é sinal de genuíno arrependimento (II Coríntios 7.10); Pedro chorou amargamente ao ver Jesus e nega-Lo (Mateus 26.75), de modo que podemos observar sua real conversão ali, pois após este momento, seu coração se alegrou ao ver Jesus ressurreto (João 21.1-8).

Em vivermos, entendermos e pregarmos isto, ficaremos contra o mundo, mas também contra a maioria dos evangélicos. É até estranho pregar sobre esta Bem-Aventurança a uma igreja cheia de doentes espirituais e psicológicos, mas só experimentaremos mais de Deus, quando formos aos mais baixos níveis de autoestima. Um vaso, para ser cheio de Deus, precisa antes ser esvaziado.

Esse choro nos acompanhará por toda a vida, mas a promessa que ele carrega também nos seguirá. E a promessa da Escritura é que seremos consolados.

O consolo está em saber que, embora seja terrível o meu pecado, seguro e fiel é o meu perdão (Salmos 51.17). O crente que chora, se agarrará em Cristo, e a paz de Jesus que traz felicidade o abraçará, pois Ele mesmo enviou o Espírito, que nos consola (Salmos 30.5). Temos também outro consolo peremptório: A bendita esperança de Romanos 8.23-24. Segundo a Escritura, teremos um novo céu e uma nova terra, onde não mais habitará a injustiça e qualquer tipo de pecado (II Pedro 3.13). Neste lugar, não haverá mais pranto, nem clamor, nem dor (Apocalipse 21.4). Bem-Aventurados os que choram por seus pecados, porque Deus pessoalmente os consolará!

Quem é o homem feliz? Muitos procuram a felicidade verdadeira, a alegria cristã. Muitos dariam o mundo inteiro para tê-la. O problema delas, e talvez também seja o seu caso, é uma falta de profunda convicção de pecado, pois só com essa visão correta e exata da gravidade do seu pecado, você chorará e sentirá o consolo de Deus em te dizer: “-Perdoado!”. A Bíblia nos diz que onde abundou o pecado, superabundou a graça de Deus (Romanos 5.20). Davi bem sabia disso, por isso pediu no Salmo 51 que Deus renovasse a alegria da sua salvação. Precisamos chorar, ter uma tristeza santa, para experimentarmos um júbilo também santo, uma alegria santa, um santo consolo, que só Deus pode nos dar.

Você é feliz? Tem chorado por causa dos seus pecados ou já perdeu toda a sensibilidade?

Talvez você se pergunte: “-Então eu preciso ficar triste, forçar o choro em meu coração?”. Esta não é uma obra ou algo que fazemos de propósito. É o Espírito Santo que causa a tristeza no coração bem-aventurado. Jesus não nos manda chorar, antes, elogia o salvo, o chama de sortudo e feliz, por ter sido levado ao choro.

Você sente a graça de Deus em sua vida a ponto de faze-lo chorar?

Lembre-se de quem você queria ser no dia da sua conversão e olhe para o que você é hoje. Era assim que queria estar? Era este o nível de santidade que queria alcançar? Essa derrota não o entristece?

O mundo chora por não ter coisas, o crente chora por não ser santo. E isto é maravilhoso! Uma obra santa está sendo feita em nós. Deus está nos consolando e nos santificando, pois quanto mais odiamos o pecado, mais perto d’Ele ficamos, e quanto mais desprezarmos as coisas deste mundo, mais nos apegaremos a Ele.

Que Deus nos faça chorar desesperadamente, para que experimentemos Seu santo consolo.


Soli Deo Gloria. 


Sermão exposto pelo Pr. Luan Almeida.
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Esboço baseado no livro: Estudos no Sermão do Monte. Martyn Lloyd Jones, Ed. FIEL. Adquira o livro aqui.

Outras referências: 

> Comentário Bíblico Matthew Henry (Confira aqui);
> Comentário Bíblico Esperança (Aqui);
> Livro: Crucificando a Moralidade. Ed. FIEL (Aqui);
> Meditações no Evangelho de Mateus. Ed. FIEL (Aqui).

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