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Bem-Aventurados os mansos - Sermão do Monte [6]





"Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra;"

É interessante observar o paradoxo deste sermão proferido por Jesus, principalmente no que tange as Bem-Aventuranças. O Evangelho de Mateus foi escrito a judeus, e havia ali, no momento da pregação, pelo menos quatro partidos judaicos diferentes: Essênios, Escribas, Fariseus e Zelotes; este último, partido de Judas Iscariotes, que pregava, entre outras coisas, que o Messias viria para declarar uma guerra santa, conquistando Israel de volta aos israelitas numa grande revolta, destruindo todos os inimigos do povo a fio de espada. Então, vem Jesus, o Messias prometido, e num dos seus primeiros sermões, diz que felizes são os pobres, os que choram, e agora, os mansos. O messias político e militar que esperavam, estava pregando que a terra será dos mansos.

Para compreendermos sobre mansidão, precisamos nos atentar ao que não é ser manso. Mansidão não é uma qualidade natural do homem, uma disposição de berço. Também não é algo que se manifesta somente em alguns crentes. Como todas as outras Bem-Aventuranças, a mansidão deve ser vista em todo aquele que é verdadeiramente cristão, pois é, como as outras, um fruto do Espírito (Gálatas 5.22), independentemente do seu temperamento.

Ser manso não é ser insensível ou frio; também não significa ser fraco, frouxo, débil, daqueles que fogem de brigas e discussões. Não é ser gentil, simpático, educado, de fácil trato; não é como aqueles que vocês podem até dizer “Tenho um vizinho tão manso, gente boa, sossegado!”; não é aquele que busca a paz a qualquer preço, embora algumas destas características serem até nobres; ser manso bem-aventuradamente falando, não é isso.
O termo grego para mansidão, inclui o oposto da ira, da irritação, do melindre, da amargura; daquele que se consome em mágoa. Manso é ser amável, sem amargura. É baseado no Salmo 37.11 e, como venho argumentando, não é uma ordem ou mandamento, é antes uma graça, uma característica daquele que nasceu de novo, que possui uma nova natureza, o foi salvo. Esta mansidão é espiritual, e é uma submissão a Deus. Ser manso significa ser ‘amansado por Deus’. O que Jesus quis nos dizer em seu sermão é que ‘felizes’ são aqueles que foram amansados por Deus, domesticados, feitos submissos, escravos do Senhor.

Quando perdidos, éramos como animais selvagens. Estávamos em violenta rebeldia contra Deus (Romanos 1.30); rosnávamos para a Sua Palavra e vivíamos desgarrados, à sorte de nossa responsabilidade; bem como Isaías narra, éramos como ovelhas sem pastor, arredios em espírito, brutos, em rebelião ao Criador (João 3.36). Quando o Senhor nos resgatou, Ele nos domesticou, amansou, subjugou e nos quebrantou. Passamos, então a ouvir Sua voz, atender Seu comando, obedecer Sua vontade, amá-Lo e segui-Lo (João 10.27). Ser manso, é ser submetido a Deus, confiando a Ele o controle e domínio das nossas vidas.

Ser manso é, portanto, algo natural, uma vez que, pela graça de Deus, fomos feitos humildes de espírito, reconhecendo que nada temos e somos; e choramos, em perceber que nosso estado levou Jesus a cruz, nos tornamos mansos, pois percebemos que nada provém de nós, mas de Deus exercer misericórdia em Cristo. É uma ação exclusiva de Deus, é interior e que se exterioriza. É ser guiado pelo Senhor Jesus, ensinado pelo Espírito Santo, cuidado por Deus. É quando abandonamos a autoestima, a auto justificação, e deixamos de brigar com Deus e o mundo, admitindo que somos pecadores, percebendo a abrangência do perdão do Senhor e a vida que desfrutamos.

Esta Bem-Aventurança é claramente vista em Jesus, que disse ser manso e humilde de coração (Mateus 11.29). Vemos em Lucas 19.45-48, o Senhor numa atitude firme e enérgica, expulsando os mercadores do templo, demonstrando que mansidão não é covardia ou frieza. Mas, vemos o Cristo repetidas vezes submetendo-se ao Pai; ainda que fosse Deus de Deus e sem pecado (Filipenses 2.5-11), Ele se esvaziou e tomou forma de escravo; dizia sempre que viera fazer a vontade do Pai, que esta era sua missão e alimento, e mesmo em face da morte, nosso Senhor submeteu-se ao desígnio do Pai... Isso é mansidão! Temos ainda, no Antigo Testamento, o exemplo de Moisés, que de um príncipe guerreiro, tornou-se o mais manso dos homens desde que viu o Senhor na sarça ardente. Ou mesmo Paulo, que de feroz perseguidor da igreja, tornou-se um homem brando, que viveu sob a vontade de Deus, e tudo suportou pelo Evangelho desde que o Senhor o derrubou do cavalo. A mansidão nos derruba do alto do nosso ego, do nosso achismo, autossuficiência e prepotência, nos fazendo confiar e depender somente do Senhor para nossa salvação e santificação, mudando nosso caráter e natureza. De rebeldes, Ele nos faz escravos, desejosos pela vontade e cuidados do nosso Senhor e domador (Romanos 12.2b).

Esta mansidão também transforma o modo com que tratamos os outros. O que Jesus ensinava naquele monte é que quem se viu pobre de espírito e chorou por seus pecados, perde totalmente a confiança em si e se entrega a Deus. O manso compreende que sua salvação não vem dele, pois é Deus quem o justifica (Romanos 5.1); que nada há de bom em si, pois se tem algo de bom, é justamente Deus operando (Filipenses 2.13), e se faz algo de bom, é Deus agindo através dele (Efésios 2.10). Entender tais coisas, preparou os discípulos de Jesus a suportar tudo, até mesmo a perseguição, por saber que não precisavam ou podiam se defender com suas próprias mãos, pois Deus era seu defensor.  A mansidão remove nosso orgulho e nos equipara a qualquer outro ser humano. Ela nos faz entender que nada podemos reclamar, que este sistema não é nosso, nem tem nada para nos oferecer. Assim, não precisamos provar nosso ‘valor’ ou nos encaixar, nem mesmo brigar com aqueles que injustamente tramam nosso mal, pois, o que somos, senão pecadores salvos pela graça? Tudo o que temos, portanto, é lucro! Deste modo, o trato com os outros é aperfeiçoado, pois nada há a ser defendido quanto a nossa reputação; não precisamos nos irritar pelo que dizem a nosso respeito, nem sermos movidos de autocomiseração ou egoísmo, pois entendemos que nada somos, senão, pecadores. Como disse John Bunyan: “Aquele que está caído não teme a queda”. Assim, quando alguém vê verdadeiramente a si mesmo e admite sua vileza e incompetência, sabe que ninguém pode dizer a seu respeito nada exageradamente mau, por exemplo. O manso, por saber quem é, sempre colocará os outros em primeiro lugar e será movido por uma misericórdia santa, pois o Evangelho nos mostra que não somos moralmente superiores a ninguém, e que não precisamos temer os outros. Isto significa que, por termos sido amansados, agora podemos realmente amar os outros.

E então, chegamos à promessa: Os mansos herdarão a terra. Esta promessa se mostra em duas facetas distintas e complementares. Primeiro, os mansos herdarão a terra, porque estes tem vivido sob a submissão e cuidado daquele que é o Senhor da terra e de tudo o que nela há (Salmo 24.1). Aprendemos a depender do cuidado daquele que nos domesticou, o que nos leva ao contentamento e segura paz, como disse o Apóstolo Paulo: “Não digo isto como por necessidade, porque já aprendi a contentar-me com o que tenho. Sei estar abatido, e sei também ter abundância; em toda a maneira, e em todas as coisas estou instruído, tanto a ter fartura, como a ter fome; tanto a ter abundância, como a padecer necessidade. Posso todas as coisas em Cristo que me fortalece.” (Filipenses 4:11-13). O manso é satisfeito, mesmo nada tendo, mas possuindo tudo (2 Coríntios 6.10b). Além disso, herdaremos a terra, pois somos herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo (Romanos 8.17), de modo que com Ele reinaremos e receberemos o reino que nos foi prometido desde a fundação do mundo. Esta terra, então renovada, será nossa. Já temos vivido o Reino e veremos o seu cumprimento visível. Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra!

A submissão a Deus é o que nos abençoa (Tiago 4.7). Você tem visto características de mansidão em você? Esta lógica da cruz é abençoadora, ou te soa como loucura? Você já foi submetido, amansado por Deus, ou confia em si e nas suas forças? Você é capaz de negar-se por Cristo, reconhecendo que sem Ele não é nada, nem pode fazer coisa alguma?

Que o Senhor o abençoe, derrubando-o do alto de sua rebelião, domesticando-o para o Seu louvor.


Soli Deo Gloria.
Sermão exposto pelo Pr. Luan Almeida.
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Esboço baseado no livro: Estudos no Sermão do Monte. Martyn Lloyd Jones, Ed. FIEL. Adquira o livro aqui.

Outras referências: 

> Comentário Bíblico Matthew Henry (Confira aqui);
> Comentário Bíblico Esperança (Aqui);
> Livro: Crucificando a Moralidade. Ed. FIEL (Aqui);
> Meditações no Evangelho de Mateus. Ed. FIEL (Aqui).





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